Wednesday, June 21, 2006

O factor decisivo no deciframento de imagens é tratar-se de planos. O significado da imagem encontra-se na superfície e pode ser captada por um golpe de vista. No entanto, tal método de deciframento produzirá apenas o significado superficial da imagem. Quem quiser «aprofundar» o significado e restituir as dimensões abstraídas, deve permitir à sua vista vaguear pela superfície da imagem. Este vaguear pela superfície é chamado scanning. O traçado do scanning segue a estrutura da imagem, mas também os impulsos no íntimo do observador. O significado decifrado por este método será, pois, o resultado de síntese entre duas «intencionalidades»: a do emissor e a do receptor. As imagens não são conjuntos de símbolos com significados inequívocos, como o são as cifras: não são «denotativos». As imagens oferecem aos seus receptores um espaço interpretativo: são símbolos «conotativos».
Ao vaguear pela superfície, o olhar vai estabelecendo relações temporais entre os elementos da imagem: um elemento é visto após o outro. O olhar reconstitui a dimensão do tempo. O vaguear do olhar é circular: tende a voltar para contemplar elementos já vistos. Assim, o «antes» torna-se «depois», e o «depois» torna-se «antes».

in, FLUSSER, Vilém - Ensaio sobre a fotografia - para uma filosofia da técnica, Ed. Relógio d'Água, 1998.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home